Dezembro 23, 2008 . 22:47

tô de casa nova! visita lá =)
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luiz marcatto . comentários:



Julho 17, 2008 . 17:46

cadê minha vida, cara?
ou sobre lâmpadas, infusões e cerâmica

   a luz piscou três vezes, de novo. alguém precisa trocar logo essa lâmpada, antes que eu enlouqueça de vez. eles já acham que eu tenho algo errado só por estar nesse lugar, e se eu começar a ter esses ataques de paranóia a minha situação só vai piorar. sempre tive essa mania de contar as coisas, de notar cada detalhe. se só por isso me tomam como louco, imagino o que farão se daqui para frente eu fechar os olhos e balançar a cabeça, chamando essa luminária dos piores adjetivos que conheço.

   cadê meu remédio, cara? essa gente daqui não liga para nada. a minha cabeça parece querer explodir a qualquer segundo, e ninguém pode me dar uma mão. nenhuma pílula milagrosa lançada recentemente, nenhuma infusão com folhas amazônicas. imagino a cena: meu crânio implodindo, cada caco de osso cravado em um pedaço diferente da parede, o sangue pingando e o resto do meu corpo desfalecendo de tanto rir. ah, eu rio mesmo. essas nossas vidas tragicômicas me divertem de tal modo que substâncias ilícitas jamais conseguirão. e eu gargalho, sem saber mais se dentro da minha imaginação ou também por fora. aí eu sou o próprio paradoxo do mundo, com o caos enfiado na cabeça e tudo ao redor tão tranqüilo. um pássaro pia alegremente no jardim. o som entra pelas gradezinhas e atinge meus ouvidos como se fosse a pura agonia de viver e morrer. eu tento pensar em qualquer outra coisa, mas é difícil.

   se no comprimento o chão tem vinte ladrilhos e doze na largura, são duzentos e quarenta quadrados de cerâmica branca que me rodeiam. esse pássaro deve ser branco também. só pode, cândido como esse quarto e aflitivo da mesma maneira. eu e o pássaro, cópias disformes do mesmo papel carbono, sujos e imperfeitos. habitamos cada um sua respectiva gaiola. é o nosso universo que começa aqui e acaba logo ali. a única força é a cabeça, as idéias, o canto, as contas. duzentos e quarenta quadrados. com eles faço uma casa branca e nela vivo. puro, alvo, castro e claustro. o mundo me engaiola, minha loucura me liberta.


luiz marcatto . comentários:



Abril 10, 2008 . 14:23


microconto - design com interiores
ou amor carnal, dependendo do contexto

   relutei um pouco quando ela me disse que pintaria as paredes de amarelo-ovo. com o tempo, tudo fez sentido. veja que, caso as tintas tivessem cores frias, as gotículas quentes e vermelhas borrifadas por todos os lados ficariam destoantes. com a espingarda na boca, redecoro a sala-de-estar.


luiz marcatto . comentários:



Março 6, 2008 . 20:36

conto de uma montanha
ou sobre burros, alavancas e paralelepípedos


   fora uma montanha. um dia chegou ali um grupo de homens gananciosos - destes que venderiam a alma ao primeiro interessado desde que o preço pagasse as despesas do mês -, primeiramente só de passagem, mas, por acaso do mau tempo, decidiram tomar assento. por sorte, um deles possuía, além da cobiça que assomava a todos, um cérebro afiado, de fazer inveja a muitos que viriam séculos após sua morte. assim que, pondo para trabalhar os miolos, terminou por concluir que a elevação era inteiriça demais e afastada demais das vilas. se os companheiros entenderam logo de imediato o que a frase do comandante queria dizer, não se tem registros, mas sabe-se, pelo simples observar do modo como as coisas foram e ainda o são, que ninguém demonstrou oposição. muito pelo contrário, rezaram elogios e cantarolaram a engenhosidade do moço até o galo cacarejar na manhã seguinte.

   não tardou que as primeiras ferramentas fossem compradas. aí sim ficou-se a saber quais eram os reais serviços por trás da referida frase. marretas e picaretas transbordavam das carrocerias dos burricos, e nem mesmo o menos esperto dos homens pode deixar de imaginar que seria uma labuta dos infernos reduzir tanta pedra a paralelepípedos. no primeiro raiar de sol do dia seguinte já se via gente em todo canto. ao longe, daria mesmo para falar “veja, que parece um apanhado de formigas a envolver um imenso torrão de açúcar, cada uma recolhendo um grão menor e levando a estocar”.

   amontoavam-se as peças no mesmo lugar donde se apanhara as ferramentas de trabalho. ao fim do dia, tanto os homens quanto os pobres animais mal suportavam o peso de suas cargas, cada um ao seu modo. a canseira que se abatia sobre os burros era ainda maior, uma vez que constantemente deslizavam involuntariamente devido ao chão inclinado. em pouco tempo, no entanto, resolveu-se esse problema. o lugar que antes formava um “v” invertido já parecia mais uma letra “a” sem o triângulo superior. a plataforma ia descendo, descendo, até o ponto em que a montanha parecia nada mais que um degrau colocado no meio do caminho, e que inconscientemente levantamos um pé para subir, e o outro para descer ao final do elevado, sem nem notar sua ilustre presença.

   os homens cortavam a rocha, empilhavam os pedaços e voltavam a dormir. por longos e longos meses ninguém soube que destino tomavam aqueles montes de mundo que se recortava tão naturalmente. numa tarde, chegou a notícia que o pai de um dos operários batera as botinas, e o comandante, honroso como há de se esperar, concedeu-lhe o dia de folga. ao voltar da capital, qual não foi seu olhar arrebatador enquanto contava que os homens mais importantes calçavam as vias da cidade com todos aqueles pedregulhos que eles, proletários, arrancavam do chão. ah, festa igual só foi vista no dia do anúncio do negócio. igual não, pois essa de então se arrastou por dias e noites, os homens trabalhavam motivados, as carroças vinham e voltavam aos montes, e o toco de morro no mesmo lugar.

   chegou o dia em que não havia mais o que se escavar no chão. era por hora uma valinha com poucos metros de fundura, o suficiente para que algum desavisado afundasse na terra e machucasse as costelas. na cidade, também, o progresso corria, as ruas eram todas cobertas dos paralelepípedos, as carroças e carros não mais sofriam com as empoeiradas e caóticas avenidas. o irremediável remédio foi, enfim, despedir os funcionários. não saíram de lá mais pobres, muito menos mais ricos, mas todos carregavam na cara o sorriso de quem crê piamente no dever cumprido. o mundo girava às suas custas, eram a própria alavanca de arquimedes.

   o tempo passou, o burro teve de ser substituído por outros mais novos e muitos dos operários aposentaram-se de tão cansados. alguns morreram, outros eventualmente suicidaram-se, que isso ocorre mesmo até nas melhores famílias. a única coisa que por infindáveis tempos ficou sem grandes mudanças foram as lajotas que formavam então o calçamento das ruas, avenidas e demais logradouros da capital e de tantas outras cidades. o clep-terep-clep dos pneus ao passar pelo intervalo entre dois paralelepípedos deu vida às vias por muitos e muitos dias. houve com certeza moças que passaram tardes inteiras às janelas deliciando-se com os sons da vida urbana, houve quem passasse e dissesse ao companheiro do lado “sabes que meu avô ajudou a construir esta rua, aquela e mais aquela outra?”, houve quem não se lembrasse que ali já existiram ruas de terra, e houve, claro está, as pessoas que nunca nem pararam para pensar no assunto.

   da montanha nada se falou, nem se fala até hoje. nenhum dos operários pensou que talvez fosse boa idéia dizer aos parentes “veja, havia ali em tal lugar uma pedreira tremenda, que formou, junto de outras coisas, essa nossa história”. em pouco tempo apareceu um vilarejo no vale que fora formado pelas extrações. formaram-se ruas, e as pessoas logo exigiram que o calçamento fosse feito o mais rápido possível.

   do fundo da terra, as forças imutáveis disto que chamamos natureza observaram tudo. choraram quando viram que homens se aproximavam daquele magnífico monte, pois sabiam que dali viria a depredação. cantaram com os galos para raiar os dias, na esperança que alguém se apercebesse da atrocidade que faziam. sofreram como uma mãe que pare um filho destinado a morrer e deixaram um vão oco na barriga do mundo. por fim, tiveram a existência sufocada por tantas pedras fora de lugar. já não sentiam mais os pés a andar pela terra, nem nas metrópoles nem nas ainda raras colinas.

   ao ouvir um dos moradores da cidade construída sobre as ruínas da montanha conspirar “é um absurdo não termos lajotas em nossas estradas, é como se não fosse natural”, as forças da natureza tiveram um súbito espasmo, deram um suspiro final e padeceram. nem os cidadãos, nem os trabalhadores e muito menos os burros se deram conta do acontecido. continuaram todos vivendo normalmente e acreditando ser esta a forma que o mundo sempre teve. na mesma linha de rarefeito raciocínio, seguem pensando que os calçamentos nasceram prontos e que alavancas não conseguem derrubar paredes. enquanto não desmoronarem, brincam de deuses, e o clep-terep-clep compõe a trilha sonora de seu espetáculo de ganâncias. o teatro da vida está completo, abram-se as cortinas.


luiz marcatto . comentários:



Fevereiro 28, 2008 . 22:02

conversas de pé de cama - volume um
ou sobre igrejas, ecossistemas e novelas.


- não consigo acreditar em um deus assim tão egocêntrico.

- egocêntrico em que sentido, vô?

- em todos possíveis. não entra nos meus miolos que quem quer que tenha me colocado nesse mundinho fique esperando que eu me ajoelhe e agradeça a ele todos os dias.

- mas é parte do seu papel como ser vivo agradecer pelo que te é dado.

- e quem me garante que eu estou vivo? meus sentidos me enganam o tempo todo. o meu conhecimento de mundo se restringe a este quarto, que eu nem sei se existe de verdade ou é um daqueles truques de ilusão de ótica.

- mesmo assim, não custa dizer obrigado pelo ar, pelas suas graças, pelos animais...

- aproveitar tudo que a terra me oferece já não é agradecer? tratar as pessoas com igualdade, respeitar a natureza dos animais, são essas coisas que mostram que alguém é grato pelo que tem. é uma tremenda hipocrisia destruir todo um ecossistema e deitar a cabeça no travesseiro pedindo a ele perdão para justificar os atos.

- mas você acredita em alguma coisa?

- não acredito em nada e não duvido de coisa alguma, mas não questiono a fé. a crença é boa, saudável até. só me deixa triste ver que as pessoas precisam ter fé em algo ou alguém para fazerem coisas boas. é como pôr por certo que o homem é mal. sem o deus para forçá-lo todo o tempo no caminho certo, vira seu próprio lobo. age como lhe convém e destrói tudo.

- e não é assim?

- pode até ser, mas é pessimismo demais com toda a humanidade. pior que já nem sabemos viver por conta própria. tudo que fazemos é predeterminado por alguma coisa ou pessoa. se não é a alienação religiosa, é a televisão, as músicas subversivas, um planeta inteiro fingindo ter cultura.

- você me diz que a religião é pessimista, mas você também não parece crer muito na bondade do homem.

- já nem sei mais em que acreditar. até acho que o homem é bom. animal nenhum na natureza faz maldades só pelo prazer de quebrar as regras. se o homem fosse, por assim dizer, selvagem, teria seu quinhão de caráter. o problema hoje e dia é não vermos mais nem esse pedacinho. como somos criados com tantas influências, não temos tempo de pensar por conta própria. somos o resumo da geração fast-food, do nacionalismo sem razões, da mídia manipulada e manipuladora, da proliferação de religiões...

- de novo você com essa coisa de religião!

- você está certa. deixe essas coisas para depois. vejo já em seu rosto uma expressão de sono. vamos dormir que amanhã é um novo dia, e não te importuno mais com minhas histórias.

- boa noite, vovô.

- boa noite, pequena, durma bem.


luiz marcatto . comentários:



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luiz rugero marcatto.
dezoito, belo horizonte, vegetariano, futuro médico. fotografia, música, cinema e violão.

na cabeceira:
os subterrâneos da liberdade - volume um (jorge amado), laranja mecânica (anthony burgess) e meus poemas preferidos (manuel bandeira).


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veja as memórias póstumas, admire as experiências fotográficas, analise o catálogo musical e dê uma olhada naquele site de amigos.

passe e plante uma árvore, aproveite bem as pipocas e refrigerantes e, de quebra, complete sua biblioteca digital.


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delicie-se enquanto ainda é tempo de morangos e aprenda que calcinhas também matam.



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